
Um fato é certo: A política ainda não começou a funcionar no Brasil.
Proponho duas hipóteses de problemas que possam acometer a nossa arte de bem governar: 1) A política não funciona porque o brasileiro não acredita e não se importa com ela ou; 2) O brasileiro não se importa com ela porque ela definitivamente não funciona.
Vamos delimitar bem as duas hipóteses.
1) A política não funciona porque o brasileiro não acredita e não se importa com ela.
Essa hipótese, ainda que pareça difícil de embasá-la com estudos antropológicos ou históricos, estabelece como problema chave da política brasileira a falta de interesse do povo em eleger e fiscalizar aqueles que foram escolhidos para representá-lo em nosso sistema democrático indireto.
2)O brasileiro não se importa com a política porque ela não funciona.
Essa hipótese, aparentemente a mais tentadora a ser escolhida, defende a tese de que o brasileiro até se interessa ou se interessou pelos atos democráticos da política, mas com o passar do tempo, assistindo aos problemas do modelo de governo adotado em nosso país, deixou de acreditar que ele possa realmente funcionar.
Pois bem, diferente do que possam pensar boa parte dos teóricos que abordam o tema, e da prória população alvo do problema debatido, penso que a primeira hipótese seja a que melhor ilustra a realidade vivida pela República Brasileira. Antecipo desde já que não defenderei uma corrente Maquiavélica, onde o homem seja mau por natureza, e, que por isso, não se preocupe com o bem comum e com a arte de governar. Nem tampouco acreditarei, como Thomas More, que o homem seja bom por natureza, quando educado por leis justas numa sociedade igualitária.
Afastada a segunda hipótese, vamos à análise da primeira.
Aponto como problema principal da política a falta de interesse popular. O povo, desinteressado, escolhe sem prévia análise o candidato que o representará e, após eleito, não será cobrado ou investigado por esses mesmos eleitores, que quase sempre estão alheios aos assuntos políticos.
Mas a que se deve essa indiferença por parte dos brasileiros perante um assunto de extrema importância? Simples desinteresse?
Contrariando a primeira impressão, também acredito numa resposta negativa.
Que existe a falta de interesse pela política por parte do povo isso é inegável, mas, o que devemos fazer após essa afirmação, é analisar o motivo dessa alienação. E nesse ponto peço vênia para expor uma opinião de extremo foro íntimo.
Tive por vezes a oportunidade de analisar, em trabalho de pesquisa acadêmica, a atuação de grupos minoritários, hipossuficientes e/ou que vivam à margem da sociedade. E aqui indago: Até que ponto podemos cobrar dessas pessoas (Indios, Comunidade LGBT, Negros, Deficientes Físicos, etc) o exercicio de uma cidadania que sequer tenha sido concedida a eles em algum momento de suas vidas? Explico melhor.
O que costumeiramente se faz é uma simples cobrança pelo fim da inércia do povo brasileiro frente à política nacional, deixando de lado, por macabra conveniência, o fato de que grande parcela dessa população tem de passar seus dias pensando em problemas como a falta de emprego, segurança, saúde, educação e outros direitos, que ainda que garantidos na mesma Constituição da República que lhe confere o direito ao voto, parecem estas tão submersos na utópia quanto a participação popular nos atos democráticos.
Eis uma opinião. Divergente do senso comum e complexa, confesso. Mas ainda assim, considerável.
Ao meu ver a política está longe de se tornar uma prioridade para o povo braileiro, no entanto, há de se considerar que essa seja uma postura de sobrevivência própria, num ambiente ainda selvagem no que diz respeito à consolidação de garantias constitucionais.
Um lembrete: Antes de acusar a inércia de um povo, investigue a realidade social na qual o mesmo está inserido.
Não acredito em uma política brasileira totalmente ineficaz, afinal, os representantes são diversos e as necessidades também... Mas as falhas existentes são, provavelmente, as maiores responsáveis por desincentivar grande maioria do povo... Belo texto, Vítor!
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